Expedição Pamurĩ Yu'kusu: uma viagem espiritual, cultural e política

Entre os dias 04 e 16 de outubro, o Instituto Ʉhtã Bo'ó Wi'í realizou a Expedição Pamurĩ Yʉ'kʉsʉ, uma jornada territorial, cultural e política pelos rios Alto Rio Negro, Uaupés e Tiquié, com saída de São Gabriel da Cachoeira. A expedição reuniu lideranças dos clãs-maiores do povo Yepá Mahsã (Tukano) em um movimento de retomada das articulações tradicionais que não acontecia há mais de um século.

A iniciativa foi inspirada na memória ancestral da Pamurĩ Yʉ'kʉsʉ, a Cobra-Canoa da Transformação, que trouxe a humanidade pelas águas e uniu povos, conhecimentos e territórios até o Alto Rio Negro. Mais do que um mito, essa narrativa orienta até hoje a forma de organização, de cuidado com o território e de construção de alianças entre os povos da região.

Um processo de escuta conduzido por indígenas

A expedição teve como objetivo restabelecer vínculos tradicionais entre os clãs do povo Yepá Mahsã, fortalecer o diálogo direto com as comunidades e atualizar a leitura sobre o território a partir de uma escuta conduzida por indígenas, para indígenas.

Durante o percurso, foram realizadas visitas a comunidades do rio Tiquié e regiões próximas, com diálogos abertos com lideranças tradicionais, sábios e moradores locais. Esse processo permitiu identificar demandas, desafios e potencialidades do território, além de registrar narrativas, histórias de origem e orientações fundamentais para o planejamento das próximas ações do Instituto.

Memória, governança e fortalecimento cultural

Com a chegada das missões religiosas ao Alto Rio Negro, a estrutura tradicional de organização dos povos indígenas foi profundamente afetada. Casas Tradicionais foram quase extintas, lideranças legítimas foram substituídas e práticas culturais e espirituais sofreram repressão. Esse processo gerou rupturas profundas na transmissão de saberes e na governança indígena.

O Instituto Ʉhtã Bo'ó Wi'í surge nesse contexto como uma iniciativa de fortalecimento do direito à memória, às histórias de origem e às práticas ancestrais. A Expedição Pamurĩ Yʉ'kʉsʉ representa um marco nesse processo, ao promover o reencontro entre clãs de chefes do povo Yepá Mahsã e recolocar a Casa Tradicional (Wi’í) como centro de decisão, ensino, cuidado e espiritualidade.

Apoios institucionais e articulação no território

A realização da expedição contou com o apoio de importantes parceiros institucionais, que garantiram condições seguras de deslocamento, diálogo e articulação no território.

A FOIRN recebeu a equipe em sua sede, em São Gabriel da Cachoeira, e validou a relevância da iniciativa no campo da governança indígena regional. A FUNAI, por meio de sua coordenação local, reconheceu os objetivos da expedição, fortaleceu o alinhamento institucional e emitiu a permissão oficial para o deslocamento.

A 2ª Brigada de Infantaria de Selva ofereceu apoio logístico essencial, incluindo motores, equipamentos, acompanhamento militar e suporte de segurança ao longo de todo o trajeto. A Saúva apoiou financeiramente a realização da expedição, reconhecendo sua importância estratégica para o fortalecimento institucional e territorial.

Caminhos para o futuro

Os registros, escutas e encaminhamentos construídos ao longo da Expedição Pamurĩ Yʉ'kʉsʉ servirão de base para a continuidade das ações do Instituto Ʉhtã Bo'ó Wi'í no Alto Rio Negro. Entre os próximos passos estão o fortalecimento das Casas Tradicionais, a realização do Encontro de Clãs, a criação de espaços de transmissão de saberes, o apoio à saúde integral e a capacitação de jovens indígenas.

Mais do que uma viagem, a expedição reafirma um compromisso coletivo com a proteção do território, o fortalecimento cultural e o protagonismo dos povos indígenas. Um compromisso que parte da memória ancestral para orientar ações concretas no presente e garantir um futuro seguro para as próximas gerações.

Muito añu.

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