Expedição Pamurĩ Yu’kusu: uma viagem de análise territorial, cultural e política
Indígenas dos clãs Ye’pá Mahsã na Ilha do Mucura durante a Expedição. Um encontro que não acontecia há mais de um século. Foto de Tayra Guarani. Outubro/2025.
Os antigos narram que a Pamurĩ Yʉ’kʉsʉ foi o caminho pelo qual os ancestrais navegaram nas profundezas das águas. Essas histórias são transmitidas oralmente pelos sábios, de geração em geração, por aqueles que guardam e mantêm vivo o conhecimento ancestral.
Os Pamurĩ Mahsã são espíritos de transformação. Eles atravessaram continentes até chegar à América do Sul. Durante essa travessia, enfrentaram grandes desafios, ataques dos seres das águas e provas. Eram visionários: observavam as estrelas, reconheciam as constelações e, por meio de visões claras e do pensamento intuitivo, buscavam um propósito — chegar a um destino onde pudessem fundar comunidades.
Aqueles que navegavam na Cobra-Canoa são reconhecidos como espíritos da transformação, ancestrais do povo Ye’pá Mahsã. Após essa longa jornada, as narrativas situam a chegada dos ancestrais na região que hoje conhecemos como Alto Rio Negro.
A Expedição Pamurĩ Yu’kusu
Entre os dias 4 e 16 de outubro de 2025, com apoio da Associação Saúva e outros parceiros, o Instituto Ʉhtã Bo’ó Wi’í realizou a Expedição Pamurĩ Yʉ’kʉsʉ, com o propósito de navegar para unir, dialogar, sonhar e fortalecer os vínculos entre os clãs e comunidades do povo Ye’pá Mahsã.
A expedição marcou um momento histórico, reunindo lideranças de clãs maiores e menores do povo Ye’pá Mahsã em um movimento territorial de articulação que não ocorria há mais de um século. O encontro promoveu o reencontro dos clãs Oyé Porã, Ahusirõ Porã, Dohétiro Porã, Uremeri Sararó, Mimi Sipé Porã, Ñahori Porã e Pomã Porã — chefes tradicionais do povo Ye’pá Mahsã — fortalecendo alianças e caminhos comuns.
Ao longo da jornada, a equipe percorreu as comunidades de Serra do Mucura, Pirarara Poço, Pari Cachoeira e São Pedro, reunindo lideranças, sábios, sábias e comunidades durante o percurso pelo Rio Negro, Rio Uaupés e Rio Tiquié. A Cobra Canoa, na cosmologia dos povos da região, representa o espírito de transformação, o princípio que trouxe os povos pelos rios, formando os territórios, as línguas, os corpos e os conhecimentos. Em cada lugar onde a Cobra Canoa passou, houve conversa, escuta e troca, fortalecendo reflexões sobre o presente e o futuro.
Durante o percurso, o encontro entre os povos teve como eixo central o fortalecimento das práticas ancestrais: os benzimentos, os cantos, as danças, os assopros de cura, o uso das plantas medicinais, dos chás, dos banhos, e a importância de levantar, reativar e fortalecer as Wi’ísesé (Casas Tradicionais Cerimoniais), fundamentais para ensinar valores, proteger os territórios e as comunidades, e garantir a proteção espiritual, evitando ataques de energias, espíritos e forças desequilibradas. Esse processo histórico fortalece os valores fundamentais, as alianças tradicionais e o propósito de promover o papel das Wi’ísere como centros de decisão, ensino, cerimônias, cuidado e espiritualidade.
Bu’ú Kennedy, líder espiritual e presidente da Ʉhtã Bo’ó Wi’í, conta:
"Assim viviam nossos avós: caçando, pescando, trabalhando coletivamente, mantendo o território intacto e vivendo em harmonia e bem-estar dentro das comunidades. A viagem foi importante para observar que os territórios e a floresta seguem vivos, se mantendo, resistindo e continuando, apesar das pressões externas."
Ao longo do tempo, os povos do Alto Rio Negro seguiram adaptando suas formas de organização, mantendo vivos seus sistemas de conhecimento, suas lideranças e suas práticas espirituais. Hoje, as Casas Tradicionais, os sábios e as comunidades seguem em movimento, fortalecendo seus modos próprios de viver, ensinar e cuidar, projetando caminhos para as novas gerações a partir dos conhecimentos ancestrais e das realidades do presente.
Durante a expedição, o Instituto Ʉhtã Bo’ó Wi’í foi apresentado às lideranças locais, junto de seus projetos, compartilhando sua visão, missão e iniciativas estruturantes diretamente no território. Um dos focos foi pensar caminhos para o fortalecimento da economia familiar e da agricultura familiar, bem como discutir formas de desenvolver capital de giro e economia comunitária através de projetos, respeitando os modos de vida tradicionais.
Diante disso, a iniciativa priorizou a escuta e a validação junto às lideranças tradicionais, recolhendo orientações e consensos comunitários que asseguram legitimidade aos planos e projetos do Instituto. A escuta permitiu identificar necessidades, desafios, potencialidades e prioridades das comunidades, orientando os próximos passos e estratégias de atuação do Instituto Ʉhtã Bo’ó Wi’í.
Também buscou fortalecer a memória ancestral por meio do registro de narrativas, histórias e lugares importantes, além do incentivo à transmissão cultural entre gerações.
Membro gestor, apoiadores e indígenas do povo Ye’pá Mahsã, participantes da Expedição, em frente à Casa Tradicional Uhtã Bo’ó Wi’í. Foto de Iberê Perissê. Outubro/2025.
Apoios institucionais e articulação no território
A realização da expedição contou com o apoio de importantes parceiros institucionais, que garantiram condições seguras de deslocamento, diálogo e articulação no território. São eles:
A FOIRN recebeu a equipe em sua sede, em São Gabriel da Cachoeira, e validou a relevância da iniciativa no campo da governança indígena regional.
A FUNAI, por meio de sua coordenação local, reconheceu os objetivos da expedição, fortaleceu o alinhamento institucional e emitiu a permissão oficial para o deslocamento.
A 2ª Brigada de Infantaria de Selva ofereceu apoio logístico essencial, incluindo motores, equipamentos, acompanhamento militar e suporte de segurança ao longo de todo o trajeto.
E a Associação Saúva apoiou financeiramente a realização da expedição, reconhecendo sua importância estratégica para o fortalecimento da nossa causa.
Com isso, a Expedição Pamurĩ Yu'kusu firma nosso compromisso e direciona as próximas realizações do Instituto.
O Instituto Ʉhtã Bo'ó Wi'í
O Instituto Ʉhtã Bo’ó Wi’í foi criado para fortalecer as práticas ancestrais, fortalecer as comunidades com uma visão de renovação, cuidado com o território, preservação da floresta e da natureza, criando caminhos para a economia e a bioeconomia, alinhando novas visões em diálogo direto com as comunidades e os povos do território. Sua missão é caminhar junto às diferentes etnias do Noroeste do Amazonas — como Baniwa, Desano, Tuyuka, Makuna, Siriano, Kubea, Tariano, Hupda, Barassano, Piratapuya, Tatuyo, entre outras — que compartilham os territórios do Alto Rio Negro, Rio Uaupés e Rio Tiquié, onde o Instituto desenvolve suas ações atualmente.
Sua sede está localizada em São Gabriel da Cachoeira, em uma Wi’ísesé (casa), pertencente ao Clã Ʉremirĩ Sararó do povo Ye’pá Mahsã. A Wi’ísesé é o centro de orientação espiritual, formação, decisão e fortalecimento cultural, conectando os conhecimentos ancestrais às realidades do presente e aos caminhos que as comunidades desejam construir para o futuro. O espaço funciona como lugar de encontro, cuidado, ensino e partilha de saberes, articulando os conhecimentos ancestrais com as realidades do presente e os caminhos de fortalecimento das comunidades.
Casa Ʉhtã Bo’ó Wi’í, localizada em São Gabriel da Cachoeira, no Sítio Ʉhtã Peri Pa’á. Foto de Lucas Derobertis. Outubro/2025.